

O Sul Global e a Desdolarização: O movimento do NDB para realizar trocas comerciais em moedas locais, tentando diminuir a dependência do dólar.
A hegemonia do dólar americano como moeda de reserva e troca global, estabelecida desde o pós-Segunda Guerra Mundial, enfrenta hoje o seu desafio mais significativo em décadas. Liderado pelo fortalecimento do Sul Global, o movimento de desdolarização tem se tornado uma estratégia econômica pragmática. No centro dessa transformação está o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o chamado "Banco dos BRICS", que sob a gestão atual assumiu o compromisso de financiar o desenvolvimento de seus membros através de mecanismos que contornem a dependência excessiva da moeda norte-americana.
A estratégia do NDB é clara e ambiciosa: a meta estabelecida para 2026 prevê que pelo menos 30% de todos os empréstimos realizados pela instituição sejam feitos em moedas locais. Essa mudança é fundamental para os países emergentes, pois o endividamento em dólar costuma gerar uma armadilha cambial perigosa. Quando a moeda dos Estados Unidos se valoriza, o custo da dívida desses países explode, paralisando projetos de infraestrutura e desenvolvimento. Ao emprestar em Reais, Yuans ou Rands, o NDB não apenas reduz esse risco para os seus parceiros, mas também fortalece as moedas nacionais dentro do sistema financeiro internacional, promovendo uma estabilidade mais resiliente às crises externas.
Além do financiamento direto, o bloco dos BRICS+ tem avançado na criação de infraestruturas financeiras alternativas ao sistema tradicional. Um dos pontos centrais desse debate é o desenvolvimento de sistemas de pagamento que não dependam do SWIFT, a rede de comunicações bancárias dominada pelo Ocidente. Através de tecnologias como o blockchain e o uso de moedas digitais de bancos centrais, o bloco busca criar a "Unidade BRICS", uma plataforma que permitiria a liquidação de transações comerciais de forma direta e soberana. Esse movimento é impulsionado pela percepção de que a dependência do dólar torna as economias do Sul Global vulneráveis ao uso da moeda como ferramenta de sanções geopolíticas.
Entretanto, o caminho para uma economia verdadeiramente multipolar não é isento de obstáculos. Apesar do crescimento do comércio em moedas locais, exemplificado pela relação entre China e Rússia, que já operam quase integralmente fora do circuito do dólar, a moeda americana ainda representa a maioria esmagadora das transações cambiais globais. O desafio para o NDB e para os países do Sul Global reside na coordenação de interesses divergentes entre seus membros e na construção de um mercado de capitais profundo o suficiente para sustentar essa nova realidade.
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Por: Ana Luiza Lopes Santos em 27/04/2026
