A crise no Afeganistão impactará o comércio brasileiro?

Por: Giovanna Relva, 30/08/2021

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  • Crise no Afeganistão e incertezas sobre exportações e importações;

  • Relações diplomáticas bilaterais pouco significativas;

  • Pauta exportadora com fácil escoamento em outros destinos asiáticos.

   Nas últimas semanas, após a retirada das tropas do Afeganistão depois de quase 20 anos de ocupação, eclodiram impactantes notícias acerca da situação no país, cuja capital, Cabul, além de outras importantes cidades, foram rapidamente tomadas pelo grupo fundamentalista Talebã que, logo após isso, assumiu o controle governamental afegão. Em decorrência desse contexto instável, surgem incertezas a respeito de quão impactado será o comércio brasileiro, mas ao que tudo indica, não haverá perdas significativas.

 

   No campo diplomático, as relações entre os dois países foram estabelecidas em 1952, ainda assim, não foi fundada uma embaixada brasileira no país, sendo essa representação efetuada pela embaixada do Brasil em Islamabad, no Paquistão. Ao longo desse período, a cooperação entre os países não foi muito proeminente, tendo sido expressa pelo projeto "Fortalecimento da extensão rural no Afeganistão", realizado entre 2018 e 2019 no âmbito do Acordo Básico de Cooperação Técnica (ACT), com o intuito de ampliar a segurança alimentar das famílias afegãs. 

   Tratando das exportações brasileiras para o país, de acordo com Leonardo da Paz, professor da FGV, em entrevista à Isto é Dinheiro, o Brasil não sentirá um grande impacto econômico, por não possuir uma relação comercial significativa com o Afeganistão. Os números desse comércio não são altos, tendo contabilizado US$32 milhões em 2019, segundo o OEC (Observatory of Economic Complexity). Ainda que este montante tenha sido praticamente o dobro do contabilizado em 2018 (US$16,99 milhões, de acordo com o Ministério das Relações Exteriores), trata-se de um valor modesto. 

   O principal produto que compõe a pauta exportadora brasileira para o Afeganistão é a carne de frango que, segundo o OEC, representou 91% de todo esse comércio em 2019. Em porcentagens menores, se destacaram os extratos de chá e café (US$737 mil) e o leite (US$490 mil). Já em julho de 2021, antes do ápice da crise afegã, as exportações de carne de frango já haviam apresentado um declínio geral, bem como para esse destino. Portanto, de acordo com o OEC, as exportações desse produto para o Afeganistão contabilizaram apenas US$1,03 milhões no mês. 

  Dado esse contexto, entende-se que as exportações brasileiras não serão fortemente afetadas por quaisquer eventuais impedimentos nas trocas comerciais com o Afeganistão. Tampouco para os produtores que realizam esse comércio, visto que a carne de frango, que há anos é o produto mais expressivo na pauta exportadora para o país, apresenta um excelente escoamento em outros países asiáticos, como a China, o Japão, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, entre outros. Demais produtos que são ligeiramente importantes para essa pauta exportadora também podem ser facilmente comercializados em outros locais. Tal é o exemplo do leite, que possui um mercado promissor nas Filipinas e nos Emirados Árabes Unidos, e dos extratos de café e chá, que se destacam em países como Japão, Indonésia e Rússia. 

  O cenário das importações é ainda menos expressivo, já que o Afeganistão corresponde a menos de 0,001% dos produtos importados pelo Brasil, de acordo com dados da Global Edge. Ademais, segundo informações do OEC, os principais produtos que compõem esta pauta, como partes de veículos e uvas, podem ser fornecidos em grande escala por países como a Argentina e o Chile e com custos de importação potencialmente menores.

  Por fim, é importante compreender que o contexto afegão ainda é muito indefinido e os reais impedimentos em questões comerciais serão conhecidos apenas futuramente. Sendo assim, é importante que empresários que realizam ou pretendem realizar comércio com o país se mantenham mapeando alternativas de países com maior estabilidade para uma eventual troca de mercado. Diante desse cenário, a atuação de uma consultoria internacional, como a Prisma, é imprescindível, a fim de compreender em quais países o comércio será mais efetivo, por meio de serviços como a identificação de mercados e também as listas de fornecedores e compradores.

 

Fontes:

https://bbc.in/3ztJ0aW

https://bit.ly/3t0V9lc

https://bit.ly/3gLz1GQ

https://bit.ly/3t24ERa

https://bit.ly/2Y8cuxb

https://bit.ly/3kJlKiY

https://bit.ly/3t0tG3j